A hora mudou e eu perdi o sono. Tu continuas a respirar profundamente sem te dar conta de quanto tempo dormiste. Não te quero acordar e nem posso ficar a olhar para ti daquela maneira que tu detestas, por isso levanto-me e vou para a cozinha preparar uma manhã diferente. Decidi fazer-te panquecas de aveia e banana. Ando com traumas de gordura e tu é que pagas pelas minhas inseguranças, embora eu argumente que faço isto por prevenção e para cuidar da nossa saúde. E de certa maneira é. Sonho viver uma longa vida ao teu lado, esteja eu com uma forma esguia, quadrada ou redonda, mas tens de perceber que ser modelo das tuas fotos revela novos ângulos de mim. Perspetivas nem sempre positivas aos meus olhos. Vou pensando em tudo isto e os pensamentos vão-se dissipando à medida que coloco a cafeteira ao lume. O cheiro a café percorre a casa até te acordar e tu lá cedes para me fazer a vontade. Arrastas-te ao longo do caminho para a mesa onde eu coloquei as colheres bonitas, as panquecas e as chávenas de café. Ainda não olhei para o calendário e, por isso, não reparo que fazemos três meses de casados. Três meses? Como assim? Eu sou pessoa de celebrar todas as datas, como é que esta me escapou? Pergunto-te que dia é hoje e tu também não sabes responder. Rimo-nos, damos o beijinho de parabéns a nós e dizemos o quanto gostamos um do outro, antes de sairmos para um café ao sol e um breve passeio pela baixa. Desta vez passou, mas eu prefiro que me chames chata a passar mais um dia destes sem te mostrar o quanto gosto de ti. O que fazes a 30 de novembro?
Não aguentei a ausência de inspiração e comprei uma viagem para nós. Os últimos dias têm sido desgastantes, em parte porque o trabalho apropriou-se do horário nobre das nossas vidas. As horas de conversa são trocadas pelos primeiros sonos no sofá. O cansaço é notório, a falta de criatividade também. Por isso, apareci cá em casa com uma viagem com destino a Londres. Dizem maravilhas da cidade e dão certezas de que nos vai maravilhar. Na verdade, todos os pretextos são bons para fugir um pouco e viver momentos a dois contigo. Viajar é muito mais do que sair dos locais comuns. É renovar a rotina com um novo ar, é encher as horas de inspiração e dar asas à curiosidade. Obrigada por seres a melhor companhia nestes andanças, por suportares viagens de avião que te custam horrores e andares de mão dada pela cidade quando o que mais queres é descansar num café bonito. A vida contigo tem mais cor. As viagens contigo fazem de qualquer espaço a nossa casa.
Caixas, roupas, pratos, móveis e um montanha de pequenas coisas acumuladas. Uma vida a dois empacotada em unidades de papel. Umas maiores, outras menores, mais uns quantos sacos que guardam os pedaços da nossa história. Pousamos as caixas ao longo do chão, por entre corredores e cantos do quarto, rumamos até à mesa e paramos para brindar com uma garrafa de vinho.
A casa ainda está o caos e até assim é linda. Antes de transformarmos as paredes num lar, é necessário escolher, arrumar, doar e deitar muita coisa fora. Dar espaço para novas histórias, novos projetos. Para já só quero o cheiro do café e das torradas a vaguear pela casa. Ter as mantas e o teu calor para me aquecer. Preencher os espaços de sorrisos e encher as paredes de fotografias. Abraçar-te todas as noites e acordar contigo todas as manhãs. O resto vem a seu tempo.


